quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Manual do mundo político

Por Josenildo Melo

Mais que um tratado sobre as condições concretas do jogo político, O Príncipe é um estudo sobre as oportunidades oferecidas pela fortuna, sobre as virtudes e os vícios intrínsecos ao comportamento dos governantes, com sugestões sobre moralidade, ética e organização urbana que, apesar da inspiração histórica, permanecem espantosamente atuais. Quem deve fazer a Política? Para Maquiavel O Príncipe. Qualquer um que fosse – aventureiro ou hereditário – que assumisse controle do Estado e exercesse o poder em seu nome. 

Ele deve reunir para tal uma série de condições, tal como concentrar em si a astúcia da raposa e a coragem do leão, inclusive ser dissimulado e perjuro se a segurança do Estado assim o exigir. E deve eliminar, sem contemplação ou hesitação, tudo aquilo que possa ameaçá-lo, preferindo ser temido do que amado, pois ele sempre tem em conta a volubilidade humana. O príncipe deve “abster-se dos bens alheios, posto que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio” (“O Príncipe”, cap. XVII). A sua política deve orientar-se sempre pelos critérios da eficiência, daquilo que se chama de pragmatismo: “Procure, pois, um príncipe, vencer e manter o Estado: os meios serão sempre honrosos e por todos louvados, porque o vulgo sempre se deixa levar pelas aparências e pelos resultados... (“O Príncipe”, cap. XVIII). 

Nenhum povo do mundo antigo contribuiu tanto para a riqueza e a compreensão da Política, no seu sentido mais amplo, como o fizeram os gregos. Os nomes de Sócrates, Platão e Aristóteles, no campo da teoria, de Péricles e de Demóstenes na arte da oratória, estão presentes em qualquer estudo erudito que se faça a respeito e mesmo nos mais singelos manuais de divulgação. Entendiam-na - a política - como uma ciência superior, determinante de qualquer organização social e com inquestionáveis reflexos sobre a vida dos indivíduos. Para Aristóteles era a arte de governar a cidade-estado (pólis). Por não conviverem com estados-nacionais, mas sim com organizações menores, as cidades, para os gregos, tornaram-se o objeto da sua maior atenção.

Como nenhum outro povo, interessaram-se pela administração da coisa pública, envolvendo-se nos intensos e acalorados debates políticos que afetavam a comunidade, manifestando extraordinária consciência sobre a importância e o significado da palavra eleutéria, entendida como liberdade e independência da cidade em relação a qualquer outro poder vindo de fora – num mundo cercado pelo despotismo e pela tirania. A sua contribuição não se confinou somente ao teórico, pois também legaram os grandes discursos de Demóstenes e de Ésquines que imortalizaram a oratória voltada para a ação.

A Política de Aristóteles. Enquanto seu mestre Platão inclinou-se preferencialmente por fazer desenhos de construções sociais imaginárias, utópicas, por projeções sobre qual o melhor futuro da humanidade, Aristóteles, seu discípulo mais famoso, procurou tratar das coisas reais, dos sistema políticos existentes na sua época. Atentou por classificá-los, definindo suas características mais proeminentes, separando-os em puros ou pervertidos. Desta forma, enquanto Platão inspirou revolucionários e doutrinários da sociedade perfeita, Aristóteles foi o mentor dos grandes juristas e dos pensadores políticos mais inclinados à ciência e ao realismo.

Maquiavel, Hobbes, e o estado forte. Distanciados por mais ou menos um século e meio um do outro, foram publicados dois tratados clássicos da ciência política: um na Itália e o outro na Inglaterra. Um intitulo-se “ O Príncipe”, de 1513, de autoria do escritor florentino Nicolau Maquiavel e o outro chamou-se “ O Leviatã”, de 1650, do pensador britânico Thomas Hobbes. Vivia-se na época da afirmação da monarquia absolutista, período conturbado onde as forças feudais e populares acirravam a disputa pelo controle sobre as monarquias nacionais, gerando permanente instabilidade, daí ambos defenderem, de maneiras diversas, o reforçamento do poder do estado.

A grandeza e originalidade de 'O Príncipe' consiste em ter alargado o campo da ciência na política, distinguindo os interesses políticos primários das classes, mas confundindo-os, ao mesmo tempo, em uma monstruosa razão de Estado pela qual o povo é apenas matéria plástica nas mãos do Príncipe.

Àqueles que chegam desavisados ao texto límpido e elegante de Nicolau Maquiavel pode parecer que o autor escreveu, na Florença do século xvi, um manual abstrato para a conduta de um mandatário. Entretanto, esta obra clássica da filosofia moderna, fundadora da ciência política, é fruto da época em que foi concebida. 

Depois da dissolução do governo republicano de Florença e do retorno da família Médici ao poder, Maquiavel é preso, acusado de conspiração. Perdoado pelo papa Leão x, ele se exila e passa a escrever suas grandes obras. O Príncipe, publicado postumamente, em 1532, é uma esplêndida meditação sobre a conduta do governante e sobre o funcionamento do Estado, produzida num momento da história ocidental em que o direito ao poder já não depende apenas da hereditariedade e dos laços de sangue.


Fonte: Portalaz

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Uma eleição do óbvio

Pouco me surpreendeu o resultado da eleição presidencial do último domingo dia 26 de outubro de 2014. Para tanto, basta fazer uma análise dos candidatos, debates e eleitores. Os comentários desairosos ou mesmo preconceituosos serviram como um estopim para espantar alguns eleitores indecisos, que pouco estavam preparados para entender e aceitar tais vereditos. Abordagens em tons homofóbicos e caluniosos feitos desnecessariamente foram a gota d’água para rotular a mediocridade de tais candidatos.
“Os preconceitos têm mais raízes do que os princípios.” Nicolau Maquiavel.
Outro aspecto interessante foram os debates permeados sobre questões neossocialistas, extremamente bem tecidos por Luciana Genro, apesar do seu vocabulário enriquecedor; porem complexo para brasileiros com pouco discernimento para entendê-los. Faltaram-lhes as lições de Nicolau Maquiavel: “eu creio que um dos princípios essenciais da sabedoria é o de se abster das ameaças verbais ou insultos.”
Com tantos atropelos, propostas obscuras ou falta delas, seria óbvio terminar da forma mais convencional possível; mais uma vez, esquerda e direita para o delírio de fanáticos e oportunistas. Por fim, como toda festa deixa um lixo, esta não seria diferente. Restaram ofensas, comentários desnecessários que feriram a integridade dos brasileiros. Artistas, colunistas e até celebridades postando em redes sociais sua ira contra o próximo. As ofensas aos nordestinos e a classe menos favorecida financeiramente tornaram-se feridas incuráveis produzidas pela tolice humana. Que a próxima eleição sejamos mais sensíveis, pois não basta dizer: “cumpri meu exercício de cidadão, mas esqueci de não ferir um ser humano.”
(Aguinaldo Sabino Alves,poeta e escritor)
http://www.dm.com.br/texto/196161-uma-eleicao-do-obvio

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Armando Avena: Maquiavel e a eleição na Bahia e no Brasil

Nicolau Maquiavel dizia que para  alcançar o poder o príncipe precisava ter virtù e, ao mesmo tempo, seduzir a Fortuna.  A virtù seria uma energia especial, uma vontade férrea em busca do poder e a capacidade de lutar e mobilizar as forças que permitam alcançá-lo. A Fortuna seria o destino, representado por uma deusa que, com sua  cornucópia, trazia boa ou má sorte aos homens. A Fortuna é mulher, dizia o florentino, e precisa ser seduzida por aquele que deseje o poder, mesmo sabendo que, como mulher e deusa, a qualquer momento ela poderá abandoná-lo.

O resultado das eleições no Brasil e na Bahia foram Maquiavel puro. O candidato Eduardo Campos, por exemplo, era um homem dotado de vontade pelo poder e tamanha capacidade e energia  que iria alcançá-lo mais cedo ou mais tarde. Campos tinha virtù, mas no meio do caminho foi abandonado pela Fortuna. Já Marina foi bafejada pela sorte e a deusa colocou a Presidência da República em suas mãos, mas ela não teve virtù, não mostrou capacidade de luta e de reação frente ao ataque do inimigo e ficou no meio do caminho.  Dilma Rousseff e Aécio Neves, ao contrário, desejam o poder e estão dispostos a lutar desesperadamente por ele, ambos são dotados de virtù, resta saber qual deles será capaz de seduzir a Fortuna.
Na Bahia, tanto o governador Jaques Wagner quanto o prefeito ACM Neto são homens dotados de virtù e ambos foram bafejados pela Fortuna. O governador, contra todas as expectativas, elegeu o candidato Rui Costa  no primeiro turno, e é, sem dúvida,  o grande vencedor dessas eleições na Bahia.  Mas engana-se quem pensa que o prefeito ACM Neto foi derrotado.  Com olhos em 2018, a deusa da Fortuna o protegeu,  afastando-o do desgaste de quatro anos de governo, num período difícil que poderá, inclusive, a depender dos seus desígnios, manter na Presidência da República um adversário.  ACM Neto não ganhou  a eleição, mas a Fortuna o preservou para 2018.
E como Maquiavel explicaria o resultado das eleições na Bahia e a vitória de Rui Costa com mais de milhão de votos? São muitas as hipóteses, mas ele provavelmente diria que a oposição errou ao identificar um sentimento de mudança generalizado na população. Esse sentimento existia apenas na classe média ou em parte dela.  E a prova disso era a aprovação do governo Wagner, em torno de 55%, o mesmo índice que elegeu o governador Rui Costa.
Havia efetivamente uma má avaliação generalizada em  setores como saúde e segurança pública, mas em outros, como emprego, estradas ou mobilidade urbana, a avaliação era boa, ou muito boa. A violência, por exemplo, não gera tanta indignação entre as camadas mais pobres da população que já estão acostumadas com ela, essas pessoas dão muito mais importância ao emprego ou a programas de transferência de renda. Para completar, essa tese, que supunha a vontade generalizada de mudança, seria boa e poderia até vingar se fosse apresentada por um nome novo, como o próprio ACM Neto, mas não se coadunava com o candidato Paulo Souto, um homem sério e competente, mas que  não representa o novo.
Outras razões podem explicar a derrota, como a vinculação, inclusive no número, entre a candidata à presidente e a governador, mas a melhor explicação para o resultado das eleições na Bahia é econômica e tem nome e sobrenome: Bolsa Família. Na Bahia, 1,8 milhão de pessoas recebem diretamente os benefícios do programa, mas, além deles, estão inscritas no cadastro mais 1,1 milhões de pessoas.
Isso significa, supondo uma família nuclear composta de três pessoas, que cerca de 5,5 milhões de baianos dependem direta ou indiretamente do Bolsa Família e mais 3,3 milhões estão na fila para receber o benefício.
Ou seja, quase 70% da população baiana tem ou pretende ter vínculo com o Bolsa Família. Em Salvador, 190 mil famílias recebem o beneficio  e 170 mil estão inscritas para receber, o que significa que cerca de 1 milhão de soteropolitanos estão envolvidos, direta ou indiretamente, com o programa. Aliás, frente a esses números, o candidato Aécio Neves deveria estar gritando, sem rodeios, pela Bahia afora, e pelo Nordeste, que vai manter e ampliar o Bolsa Família, até porque esse é um bom programa.
Dei-me por satisfeito com a análise e já ia colocar o ponto final no artigo, quando, de repente, o velho Maquiavel materializou-se e, afirmando que faltava uma última constatação, disse com uma voz diabólica: “A  vitória do governo na Bahia e em outros estados do Nordeste é a prova de que a região  reage com atraso à vontade de  mudança.
Em 2002, quando a onda mudancista colocou Lula no poder, a Bahia elegeu Paulo Souto, e o Nordeste inteiro permaneceu atrelado à antiga ordem. Agora pode ser dar o mesmo”.  Pode ser, admiti – olhando assustado  para o fantasma que já se dissipava –, mas isso quem vai decidir é o povo, após uma campanha sangrenta, e numa das eleições mais disputadas da história do Brasil.
Horário de Verão
“Mais luz”, disse Goethe, o grande poeta alemão, quando seus olhos foram condenados definitivamente à escuridão. Mais luz, diz a Bahia, às vésperas de novamente ficar de fora do horário de Verão que começa no próximo dia 19 de outubro.

Ficar de fora do novo horário vai reduzir o crescimento da economia baiana, que possui muito mais ligações econômicas e de toda ordem com os estados do Sul e Sudeste, que serão regidos por esse horário, do que com os estados do Nordeste, que continuarão com o horário de sempre.  Além disso, o comércio será prejudicado, os bares e restaurantes perderão a oportunidade de ter mais uma hora de faturamento e o turismo vai perder competitividade em relação a outros estados.
Para completar haverá  atraso nas negociações cambiais para o comércio exterior,  incompatibilidade de horários dos voos do aeroporto de Salvador com os das outras capitais, problemas nos sistemas de comunicação e redução do horário de negociação de ações na bolsa de valores de São Paulo.
Se a economia sofre, a população também, pois  ficará com uma hora a menos de expediente bancário,  verá sua novela e seu jogo de futebol com uma hora de atraso e perderá a possibilidade de ter mais uma hora de lazer e socialização. E isso sem falar na economia de energia elétrica. Ficar de forra do horário de Verão significa menos emprego, menos turismo e menos diversão para a Bahia.
O Bolsa Família devia virar lei
O Bolsa Família é  programa clássico de distribuição de renda, com origem nas teses liberais, e deveria ser institucionalizado para evitar seu uso político. O programa é bom porque não é intervencionista, pelo contrário, é capitalista em sua essência.  A vantagem do Bolsa Família é que o governo, em vez de gastar dinheiro público, subsidiando o empresário através do BNDES ou mantendo a gasolina abaixo do preço, beneficiando quem tem automóvel, em vez de desperdiçar dinheiro com obras faraônicas ou com corrupção, coloca esses recursos diretamente na mão de quem precisa e vai gastar, dinamizando assim a economia.

O programa é capitalista, pois estimula o consumo, sem a intervenção do governo, que não pode dizer onde o beneficiado vai gastar. Cerca de R$ 3 bilhões do Bolsa Família vieram para a Bahia em 2013, e aproximadamente 300 milhões tiveram Salvador como destino. Em muitas cidades do interior é esse recurso, juntamente com os repasses da Previdência Social, que movimenta a economia, o comércio e os serviços. O Bolsa Família é fundamental para o Nordeste e deveria virar lei para não ser usado politicamente.
Fonte: Correio24h

terça-feira, 27 de maio de 2014

Aulinha de Maquiavel - por Archibaldo Antunes

O desgaste do governo Alckmin (SP) ante a crise do abastecimento de água e sucessivos escândalos no sistema de metrô levou os tucanos à releitura de Maquiavel. Essa gente sabe que nos momentos de crise – durante os quais o populacho ameaça guilhotinar os integrantes da realeza – é preciso colocar a culpa nos inimigos externos.

Distante cerca de 3,6 mil quilômetros de São Paulo, e governado pelos desafetos históricos do PT, o Acre serviu como uma luva nas mãos dos tucanos desesperados. E não deu outra: com a ida para Sampa de algumas centenas de imigrantes haitianos, armou-se o circo de que precisavam os “alquimistas” para desviar a atenção da plateia sedenta por água e um lugar sossegado no vagão do metrô.
E pra que pudessem dar ares de seriedade à ópera bufa, os tucanos paulistas escalaram até um articulista de Veja para atacar o governador Tião Viana. Tudo após um entrevero midiático entre os dois políticos, que teve como tema a responsabilidade de abrigar e cuidar dos imigrantes que nos chegam aos magotes do Haiti, Senegal e República Dominicana.
J. R. Guzzo, o escriba da Veja, fez como a secretária de Justiça de Alckmin ao rebaixar o nível de sua pena para atacar Tião Viana, chamando-o de “um servidor opaco do médio clero do PT”. Desancar o governador acreano por conta do deslocamento de haitianos que entraram no País por Brasileia, via Peru, é mais fácil que terçar armas com o governo federal, de quem se espera socorro milionário neste momento de crise. Mas é bem menos insensato que sugerir – como fez o também tucano Marcio Bittar – que as nossas fronteiras fossem fechadas aos imigrantes.
A revista Veja, bem como Guzzo, não quer que São Paulo arque com custo nenhum decorrente da imigração de haitianos para o Brasil. Desde que seja o Acre (ou o Amapá, Roraima, Rondônia, etc.) a fazer sacrifícios, tanto os alquimistas quanto os intelectuais de sua redação estarão pouco se lixando para o que acontece a mais de três mil quilômetros de distância dali.
A deselegância de J. R. Guzzo, que apequenou o próprio estilo ao emprestar a pena aos alquimistas do PSDB, é apenas reflexo de uma inépcia maior – que acomoda no mesmo balaio os burocratas elitistas e a subserviência proxeneta da intelligentsia paulistana. Veja já demonstrara anteriormente, ao criticar em sua coluna Radar o transporte aéreo de produtos alimentícios para o Acre durante a cheia do rio Madeira, o que pensa sobre o Estado e seus habitantes.
Se juntarmos à inépcia dessa gente a sua crônica incapacidade de compreender a diversidade do País, teremos a equação entre o nosso modo de agir o que eles pensam de si mesmos.
Não é à toa que há enorme diferença entre os que alimentam os devaneios separatistas e aqueles que empunharam armas para ser aceitos como filhos do Brasil.
Em São Paulo existe até o MRSP, ou Movimento República de São Paulo, que pretende se livrar do resto do país com uma só canetada.
Compõem o movimento alguns jovens de classe média alta das cidades mais ricas do interior do Estado. Como não podia ser diferente, o grupo põe nos migrantes do Nordeste a culpa por todos os seus problemas cotidianos.
A patota de Alckmin certamente descobriu que o Acre foi povoado por nordestinos.
Archibaldo Antunes – ark30antunes@bol.com.br - Jornalista

segunda-feira, 17 de março de 2014

Os olhos dos homens nas eleições de 2014

“Os homens, universalmente, julgam as coisas mais com os olhos do que com as mãos, porque todos podem ver, mas poucos podem sentir. Todos veem aquilo que pareces, mas poucos sentem o que és; e esses poucos não ousam opor-se à opinião da maioria, que tem, para defendê-la, a majestade do Estado” (Nicolau Maquiavel, em O Príncipe, tradução de Maria Julia Goldwasser, 4ª edição, São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010, pág. 87).
Entre os enganos frequentes – e são tantos – das análises que se ocupam de investigar a confluência entre a política e a comunicação está o de supor que o engenho de seduzir o olhar alheio tenha sido um produto do século 20 ou, vá lá, uma invenção do final do século 18, no bojo das revoluções que culminariam por fabricar nos comuns do povo a ilusão de que seriam eles os protagonistas da História. Claro que o século 20 massificou a propaganda política, assim como massificou tudo o mais. Claro, também, que a Revolução Francesa não se cansou de “jogar para a plateia”, a ponto de usar o teatro da guilhotina como a prova sangrenta de que o novo poder, não sendo condescendente com os nobres, não seria condescendente com mais ninguém (nem mesmo com Danton, o revolucionário que foi executado aos 34 anos de idade, ou Robespierre, decapitado aos 36).
Vista como um fenômeno de comunicação política, podemos dizer que, em seu início, a Revolução Francesa triunfou porque soube proclamar a si mesma, nos panfletos parisienses, como a emissária da liberdade, da igualdade e da fraternidade. No final, malogrou porque lhe restou apenas a imagem de ser a lâmina do terror e nada além do terror. A comunicação também esteve no centro da estratégia que levou à criação dos Estados Unidos da América: foi com uma série de artigos de jornal que os federalistas ganharam os bons olhos da opinião pública para a causa de que a união faria a força dos Estados.
Rituais carnavalescos
As técnicas de propaganda na política, a partir do século 18, são bem conhecidas de todos. Mas elas não foram inventadas ali. Esse tipo de comunicação é bem anterior à Revolução Francesa. Em 1515, quando entregou a Lorenzo o texto com seus conselhos, Nicolau Maquiavel alertava para isto: os homens julgam mais com os olhos do que com o juízo, quer dizer, formam o juízo a partir do que veem. Em O Príncipe ele ensina que política é jogo de cena. “A um príncipe não é necessário ter de fato todas as qualidades (ele fala de “piedade, fé, integridade, humanidade, religião”), mas é bastante necessário parecer tê-las.” Nesse ponto, o pensador florentino ecoa Júlio César – que teria dito, no ano 63 a.C., que “à mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta” –, mas o faz com uma distinção crucial: para ele, a honestidade da mulher de César seria um dado de pura irrelevância: se ela realmente parecesse honesta, não teria necessidade alguma de ser honesta.
Desde Júlio César – e desde muito antes, na verdade – a conquista, o exercício e a manutenção do poder envolvem a construção, o uso e a manutenção da imagem. A política se faz pelas armas e pela comunicação, num combinado que conjuga força e circo (e pão também, ocasionalmente), para erguer e entronizar uma imagem.
É bem verdade que o século 20 trouxe rupturas estruturais nessa fórmula, com o aprimoramento e agigantamento industrial das ferramentas de sedução (dos olhos dos homens) pela imagem. A partir da indústria cultural a comunicação passou a exercer funções que antes (em Maquiavel também) cabiam à violência direta. Mais: o uso da violência converteu-se numa forma ultraelaborada de espetáculo a serviço da comunicação política. Hoje, muito mais do que antes, os atentados terroristas (que sempre foram atos de propaganda perversa), as manifestações de rua (propaganda relativamente benéfica) e mesmo as guerras são atos (espetaculares) de comunicação, cujo objetivo é fixar ou destruir imagens que disputam o imaginário em torno do poder. O terrorismo e a guerra passaram a ser não mais a continuação da política por outros meios (Clausewitz), mas o prolongamento da comunicação política por meio de signos de exceção.
Política, enfim, é comunicação – e essa comunicação pode lançar mão da força para tocar as retinas dos homens que não sabem conhecer o mundo pela própria ação. Do mesmo modo, e com os mesmos propósitos, lança mão das atividades circenses de maior envergadura, como os grandes festivais de rock e as jornadas esportivas de visibilidade planetária. Na comunicação política os rituais carnavalescos e festivos são equivalentes comunicacionais dos bombardeios redentores.
Artilharia publicitária
É o que veremos em breve. Como bem sabe o leitor, dentro de cem dias, ou um pouco menos, será aberto no Brasil um celebrado Campeonato Mundial de Futebol, que contará com a participação de um time composto de atletas brasileiros especialmente selecionados para isso. O plano de comunicação em que esse campeonato se vai desenvolver é o mesmíssimo em que as eleições presidenciais vão transcorrer logo em seguida (lembremos que a campanha eleitoral vai começar, oficialmente, em julho). As telas eletrônicas serão as mesmas. Os destaques do noticiário serão os mesmos. Os lugares físicos também: ruas, praças, aglomerações humanas. Os signos da nacionalidade – que servirão de âncora para a opinião crédula da maioria – atravessarão os dois eventos sem ter de mudar a fantasia. As eleições nacionais serão a continuação da Copa do Mundo – e pelos mesmos meios.
A partir de junho, a majestade do Estado estará a serviço da imagem dos governos (federal e estaduais). Vem aí uma artilharia de guerra publicitária sob a forma de um circo de congraçamento. O alvo serão os olhos dos eleitores. Maquiavel entrará no picadeiro, encarnado por marqueteiros e candidatos que, sem ter lido o que ele escreveu, sabem de cor as lições que ele deixou.
***
Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP e da ESPM

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Dividir para reinar

Ao separar a Gafisa da Tenda, grupo traça o caminho para que as empresas, no mínimo, dobrem de tamanho em três ou quatro anos

Por Márcio JULIBONI

Do general chinês Sun Tzu (séc. V a.C.) ao pensador florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527), a ideia de dividir para reinar sempre foi associada à estratégia de separar as forças inimigas para enfraquecê-las e, assim, vencer a batalha. Dividir as próprias tropas, porém, não é uma prática comum, mas é a base do plano que a incorporadora Gafisa anunciou, na segunda semana de fevereiro, para dar um salto nos próximos anos. O objetivo é transformar suas marcas Gafisa e Tenda em empresas independentes. Se tudo der certo, o grupo espera, no mínimo, dobrar de tamanho no médio prazo com o desmembramento. “A soma das partes valerá mais que o todo atualmente”, afirma o presidente da Gafisa, Alceu Duilio Calciolari.
 
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Por conta própria: Sandro Gamba (à esq.) e Rodrigo Osmo assumirão
o comando da Gafisa e da Tenda, respectivamente, e as empresas
tomarão rumos cada vez mais distintos
 
Um exemplo do que se espera com a mudança é a evolução dos lançamentos. No ano passado, os imóveis com a marca Gafisa somaram R$ 1,085 bilhão. Já a Tenda, focada em habitação popular e que passou dois anos sem colocar nada no mercado, enquanto era reestruturada para sair de uma grave crise, lançou R$ 338 milhões. Assim, as duas somaram R$ 1,4 bilhão. Segundo Calciolari, em três ou quatro anos, a Gafisa tem condições de alcançar um patamar de R$ 2 bilhões a R$ 2,5 bilhões de valor geral de venda por ano. Qual é o segredo? Liberar recursos e energia das empresas. “Agora poderemos focar a companhia na sua própria operação, e há um mercado espetacular para as duas”, diz Calciolari. 
 
Para a Tenda, a cifra deve girar entre R$ 1 bilhão e R$ 1,5 bilhão. Isso significa que as empresas podem dobrar de tamanho nesse período. Esses números também circulam pelo conselho de administração da incorporadora. “Há muito valor a ser gerado”, afirma um conselheiro, que pediu para não ser identificado. Embora a ideia de desmembrar as duas construtoras tenha começado a ser discutida mais seriamente em meados do ano passado, há pelo menos dois anos o comando da Gafisa tinha consciência de que a marca focada no médio e alto padrão e a Tenda não ganhavam nada juntas, com caixa e direção em comum. “As sinergias são tão pequenas quanto as de uma fusão entre uma companhia aérea e uma confecção”, afirma o conselheiro. 
 
Na prática, apenas a centralização das tarefas administrativas trazia alguma economia. O compartilhamento de materiais e técnicas de construção não trouxe os resultados esperados, simplesmente porque as marcas atuam em mercados distintos, utilizando produtos diferentes. “Um projeto da Gafisa requer mais artesanato, e a Tenda é praticamente uma indústria”, compara Calciolari.Mas a incompatibilidade operacional não é tudo. A separação das empresas representa também uma correção de rota. “A compra da Tenda foi uma grande besteira”, diz, sem meias palavras, o conselheiro da empresa. “O problema foi fazer tudo correndo, sem uma auditoria detalhada.” 
 
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Fim de um ciclo: Calciolari deixará a presidência da Gafisa em 90 dias, após a transição -
"A soma das partes (Gafisa e Tenda) valerá mais que o todo atualmente"
 
A companhia mineira, adquirida em 2008, revelou-se uma fonte de preocupações. Em 2011, quando o atual conselho de administração assumiu e Calciolari foi nomeado presidente, o comando da Gafisa decidiu incorporar a Tenda para lhe aplicar um “choque de gestão”. Ao separar novamente as marcas, a direção do grupo indica que a reestruturação da Tenda foi concluída. “Se tivéssemos separado as operações há dois anos, seria um desastre”, diz o conselheiro. Em 90 dias, o executivo Rodrigo Osmo, atual superintendente, assumirá a presidência da Tenda, que passará a ser uma companhia autônoma. 
 
O executivo, que até agora se reportava a Calciolari, responderá apenas ao conselho de administração do grupo. Sem ter de se preocupar com a Tenda, a Gafisa voltará às suas origens: a construção e venda de imóveis de médio e alto padrão nas regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro. “Temos as condições para continuar atuando no segmento em que somos referência”, diz Calciolari. O executivo afirma que a Gafisa pode deter de 4% a 6% de participação de mercado na capital paulista, que recebeu lançamentos de R$ 20 bilhões no ano passado. A tarefa de consolidar a empresa caberá a Sandro Gamba, que assumirá a presidência após o período de transição comandado por Calciolari, que deverá deixar as funções executivas na Gafisa.
 
É claro que entre as intenções e os resultados, uma série de percalços pode ocorrer. Para os investidores, por exemplo, ainda há dúvidas sobre se a Tenda conseguirá mesmo caminhar com as próprias pernas. “Seria ruim ver a Gafisa ainda bancar alguns custos da Tenda”, afirma o analista de mercado Lenon Borges, da corretora Ativa. Outra dúvida é se o cenário continuará favorável, a ponto de sustentar o crescimento das duas companhias no ritmo desejado. Mas, pelo menos até agora, os especialistas em mercado imobiliário não enxergam sinais de perigo. 
 
Segundo Claudio Bernardes, presidente do Secovi-SP, entidade que representa as incorporadoras paulistas,o mercado de médio e alto padrão continuará com boa demanda nos próximos anos, devido ao bônus demográfico – o crescimento da população e as novas famílias, que vão precisar de um imóvel. Já o Minha Casa Minha Vida deve continuar, mesmo no caso de uma eventual troca de governo. “É um programa politicamente interessante para todos”, diz Bernardes, do Secovi-SP. Basta lembrar que o déficit habitacional em 2011 (último dado disponível) era de 3,352 milhões de moradias. Agora, com os negócios em ordem, autonomia e um mercado favorável, Gafisa e Tenda estão em melhor condição do que nunca para construir seus próprios reinos e povoá-los com os clientes que lhes faltaram até o passado recente.
 
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