sexta-feira, 22 de abril de 2016

Maquiavel nunca escreveu a frase “os fins justificam os meios” – síntese rasteira que gerou mal-entendidos


Você certamente já ouviu alguém dizer que “os fins justificam os meios”. Talvez você mesmo diga isso aos amigos quando comenta a cena nacional, que não anda nada fácil. A frase aparece em todas as conversas sobre política, seja no balcão do bar da esquina, seja no Congresso Nacional, seja nas universidades.

Com frequência, ela é atribuída ao filósofo e político italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527), um dos mais ofuscantes gênios do Renascimento. Para muita gente, Maquiavel é tão definitivo que merece o posto de inventor da ciência política. Em sua obra máxima,O príncipe, ele promoveu a separação entre a moral religiosa (católica, para sermos precisos) e a ética política. Ao governante seriam permitidas condutas que um prelado no Vaticano condenaria. Nenhum problema. O que importa na política não é a santidade, mas o êxito das ações que conduzam ao bem do Estado e ao fortalecimento do poder do príncipe.

Maquiavel não “inventou” nenhum novo código para os negócios do governo. Ele apenas compreendeu e registrou a lógica do comportamento dos detentores do poder, que sempre fizeram coisas que os representantes de Deus diriam ser pecado mortal. Maquiavel decifrou as entranhas – as leis ocultas – desse modo de agir e as descreveu com a frieza e a precisão de um estudioso de anatomia e de fisiologista que disseca um cadáver. Assim é que é, goste você ou não.

O curioso é que a tal máxima – “os fins justificam os meios” – não aparece no texto de O príncipe.  Aliás, os estudiosos asseguram que Maquiavel não a escreveu nunca. Mesmo assim, a frase acabou se consagrando como a melhor síntese de todo o seu legado, uma síntese tão rasteira que acabou gerando mal-entendidos.

Hoje, quando um deputado embolsa uma bufunfa no banheiro do restaurante, inventa para si mesmo uma “justificativa maquiavélica” e toca a vida para a frente. “O meu fim é justo e bom”, ele repete, em pensamento. É certo que nosso deputado – fictício, por favor – entendeu tudo errado. A corrupção, disseminada como anda, não revigora nem o Estado nem as instituições, muito menos a Presidência da República. Estraga tudo, isso sim, mas o tal deputado nem liga. Ele se sente moderno como um cartão de crédito com chip, arrojado como um atacante do Barcelona, o próprio príncipe florentino. “Maquiavelismo” é com ele mesmo.

O que nosso deputado – fictício, é bom repetir, estamos falando de um deputado meramente hipotético – não sabe é que, em vez de os fins justificarem os meios, são os meios que determinam os fins. Explicando melhor: quando ele vai lá e aceita a propina, ou quando extorque, ou quando se vende com um sorriso na cara, não está servindo a um fim justo e bom para todos, mas está fabricando um fim que exigirá meios cada vez mais baixos e nocivos.

Não há como ser diferente. Ao lançar mão desse tipo de expediente, o fictício parlamentar e sua contraparte empresarial vão tecendo uma teia de relações obscuras que por sua vez vai determinar o caráter profundo daquele mandato, daquela casa legislativa, daquele país. Os meios empregados em política nunca são um atalho neutro, uma ferramenta que não deixa sinais, um desvio casual que depois ficará no esquecimento. Ao contrário, são a metodologia que acabará por definir o objeto final. Meios corruptos desaguam em métodos corruptos e, então, produzirão fins corrompidos.

Imagine, por exemplo, uma hipotética empresa estatal de petróleo num hipotético país continental. Se os dirigentes dessa companhia são instados a realizar negociatas, sua rotina de trabalho contaminará as finalidades todas da organização. A corrupção estragará a estatal não porque desvia dinheiro, mas principalmente porque desfia o foco com que ela precisa trabalhar. Outra vez, os meios escusos produzem fins escusos e desestruturam os fins que originalmente poderiam ser bons. Não há escapatória.

Essas ideias deveriam vir em socorro dos parlamentares do Congresso Nacional nestes dias. Para uns, o impeachment da presidente da República é o “bem maior” que justifica alegações malfeitas, atropelos formais do processo e assim por diante. Para outros, o “bem maior” é a permanência de Dilma Rousseff, e esse “bem maior” justifica a obtenção de votos com favores prestados pelo manejo obsequioso da máquina pública. Nenhuma dessas condutas, de um lado ou de outro, fortalecerá o Estado brasileiro. Outra vez, veremos que o emprego de certos (errados) meios acabará contaminando o resultado final. É também por isso que, aprovado ou rejeitado o impeachment, o Brasil corre um risco muito sério de ficar pior do que já está.


Fonte: Epoca

domingo, 6 de dezembro de 2015

Maquiavel e Dilma Rousseff

Um dos mais extraordinários pensadores e igualmente mal compreendido no imaginário popular: Niccolò di Bernardo dei Machiavelli ou mais conhecido como Maquiavel (1469-1527).
Quem já não ouviu alguém afirmar que fulano é “maquiavélico”, em um tom pejorativo, quando se refere a um oportunismo voltado ao poder, na base dos fins que justificam os meios? Tal conotação rasa acaba ofuscando o que há por trás do pensamento de Maquiavel.
Intelectual em um tempo de transição, Maquiavel escreve com um certo ar de denúncia, sobre como funciona a política, na prática que formula seus embasamentos teóricos. Na sua disposição de identificar e avaliar as atitudes de políticos, há fatores que podemos classificar como eticamente aceitáveis, e outros que podemos até repudiar quase que instantaneamente, mas que fazem parte de um pragmatismo em fazer política.
Um exemplo: No prefácio da obra Maquiavel, O Poder (1) do professor José Nivaldo Junior, escrito por Cristovam Buarque, professor da UnB e atualmente, senador da República, ao tratar sobre “Os arcaicos maquiavéis de hoje”, Buarque sintetiza o que era oportunismo no entendimento de Maquiavel: “consistia em escutar o povo e cumprir radicalmente os compromissos assumidos”.
O oportunismo de Maquiavel é voltado para o fortalecimento do poder cujo marketing tem objetivos e necessidade de constantes avaliações e se relaciona com o prestígio diante das forças que se voltam sobre o governante.  Certamente, ele se tornou mais conhecido, em sua obra mais estudada,  O Príncipe, por conta deste trecho:
“Na conduta dos homens, especialmente dos príncipes, contra o qual não há recurso, os fins justificam os meios. Portanto, se um príncipe pretender conquistar e manter o poder, os meios que empregue serão sempre tidos como honrosos, e elogiados por todos, pois o vulgo atenta sempre para as aparências e o resultados; o mundo se compõe só de pessoas do vulgo e uma poucas que, não sendo vulgares ficam sem oportunidade quando a multidão se reúno em torno do soberano.” (2)”
O político e estudioso de Florença foi um douto observador de fenômenos de poder e que muitas vezes discorreu sobre protagonismos, procurando identificar relações mais profundas com o que predomina na natureza humana.
Onde políticos obtiveram êxito? Onde fracassaram? Como se deram suas ações calculadas? Quando prometeram, cumpriram e não cumpriram, romperam, mentiram em acordos, dissimularam,  se aliaram, guerrearam, optaram pela paz, manipularam, dominaram, julgaram, foram benevolentes, pactuaram, cometeram crueldades, etc.
Em Maquiavel,  a política é um exercício de escolhas e o poder deve ser fato, não apenas abstração. O governante precisa ter habilidades de reflexão e postura para governar; o sucesso de uma política precisa ser atestado por resultados.; tudo isso é pragmatismo. Governar respeitando os súditos (que seria o povo em nosso tempo), não atacando seu patrimônio, evitando coisas que o façam ser odiado ou desprezado pela massa.
Se o governante for tímido,  irresoluto, frívolo, de personalidade fraca, sucumbirá. Precisa aprender a interagir com corruptos e evitar com todos os meios, a ira dos partidos mais poderosos.  Política é para velhas raposas e não para imaturos, idealistas, sonhadores. O mundo do poder entre homens é sujo, sombrio, e o governante precisa aprender a sobreviver a todo esse lamaçal. As vezes, precisa agir com a força agressiva de um leão, mas sobretudo, ser astuto para surpreender as presas, como uma raposa.
Lendo Maquiavel, fica fácil entender que o alto escalão para iniciantes é um desastre. Será preciso que o político governante seja um indivíduo deveras calejado, que saiba como funciona a lógica de multas segundas intenções, escapando dos aduladores, que tenha experiência longa entre negociantes do poder, quando se intenta na posição de se assumir como um soberano, nunca deixando de estocar  uma sabedoria que é incessante, para estudar e compreender os interesses dos poderosos na política e na economia, ao mesmo tempo em que deve procurar agradar o povo de modo que o poupe de aborrecimentos, pois o mais importante castelo que protege o governante, não é de concreto com guardas fortemente armados; é pela honra que os governados lhe reservam e pelo temor dos poderosos com sua capacidade de governar. Um príncipe odiado pelo povo, não resistirá por longo tempo.
Trazendo as lições de Maquiavel para a situação de Dilma Rousseff, percebo que ela não tem a virtú. Não é hábil para viver governando e se preservar, em saber ler os fatos, se adaptar rapidamente àos imprevistos e ao mesmo tempo se fortalecer no exercício do poder, o que na visão de Max Weber é a capacidade de impor vontades aos outros.
Esse fascínio que as pessoas têm em um autêntico líder, Dilma Rousseff simplesmente não apresenta e  demonstra não possuir uma mínima bagagem sobre o funcionamento da cultura política no Brasil. Suas decisões sinalizam que ela carece de uma sabedoria que lhe permita se equalizar com os anseios da população.
Enquanto o povo está aborrecido em pagar tributos elevados, ela envia pacotes ao Congresso para aumentá-los visando cobrir desfalques que ela mesma provocou. Enquanto o povo se encheu do seu partido, ela exerce uma proteção inútil a apadrinhados, na medida em que se distancia do partido que tem o maior poder no Congresso: o PMDB.
Dilma Rousseff é uma governante desqualificada; não está à altura do cargo pelo qual foi designada democraticamente e assim, sofre nas mãos de velhas raposas e leões enrijecidos que a estão engolindo juntamente com o seu partido, repleto de trapalhões.
maquiavel
Na abertura do Capítulo XXII de O Príncipe:
“os ministros serão bons ou maus, de acordo com a prudência que o príncipe demonstrar. A primeira impressão que se tem de um governante e da sua inteligência, é dada pelos homens que o cercam.” (3)
Tirando os ministros Joaquim Levy e Guilherme Afif Domingos, os que cercam Dilma Rousseff representam mais suas preocupações em preencher cargos para satisfazer partidários, e não pela capacidade de bem assessorá-la em equilíbrio com a base aliada e um projeto de governo que possa ter sentido aos desafios econômicos da nação.
O que faz Aluízio Mercadante na Casa Civil? Apenas atrapalhar a articulação política, mas ainda está por lá, quando já deveria ter sido demitido. A presidente perde muito tempo tentando ser leal a partidários que não estão lhe dando proteção eficiente.
O que fez Nelson Barbosa até o momento? Advindo de um momento do governo Lula, onde laborou a desastrosa Nova Matriz Econômica, que nos empurrou a presente crise, saiu do governo, virou um crítico (3), e agora posa de austero, mas parece ser mais uma pedra no sapato do ministro da Fazenda.
Por último, a verdade não é uma ofensa, sendo a grande lição, a meu ver, no Capítulo XXIII. A verdade! Justamente ela, que tem mais se ausentado em um governo cuja soberana se elegeu com um discurso de mentiras. Nos bastidores do poder, é a verdade que deve ser preservada, para diagnósticos mais precisos e descoberta de caminhos. O governante precisa escolher sábios que tenham total liberdade para expressar as mais inconvenientes verdades.
Muito interessante ler e reler Maquiavel e suas constatações simples, práticas, objetivas, tão atuais, e que certamente fazem muita falta na história e na cabeceira de nossa perdida presidente da República.
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Notas:
1. Maquiavel. O Poder. Ed. Martin Claret, 2002.
2. O Príncipe, pág. 104. Ed. Martin Claret 2002.
3. O Príncipe, pág. 129. Ed. Martin Claret 2002.
4. Recomendo a leitura do artigo de Adolfo Sachsida  Os Economistas do Fracasso: No governo geraram o caos, fora dele agem como se a culpa não fosse sua.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

EXCLUSIVO: entrevista com Nicolau Maquiavel - por Ricardo Gondim

 

Por Ricardo Gondim

 
Depois de muita insistência, Nicolau Maquiavel aceitou despertar do sono.
Desde que morreu em 1527, concedeu-me sua primeira entrevista. Conversamos sobre os rumos da política brasileira. As observações merecem ser ouvidas pelos homens públicos – bem como por todos os que se sentem inquietos com o que acontece no país.
 
Ricardo Gondim: O Brasil atravessa uma gravíssima crise política e já se fala até em uma possível renúncia da Presidente. O Senhor não acha que faltam conteúdos mais sólidos para o exercício da política no Brasil?
Nicolau Maquiavel:
 Aqueles que se tornam príncipes [leia-se: presidentes] exclusivamente pela sorte [marketing] empregam nisso pouco trabalho, mas só a muito custo se mantêm na nova posição. Não encontram grandes dificuldades para alcançar seu objetivo, mas todas as dificuldades aparecem quando lá chegam. São os que recebem o poder ou em troca de dinheiro ou pela graça alheia… Assim se faziam aos imperadores que chegavam ao poder corrompendo suas tropas. Nestes casos há uma completa dependência da sorte [marketing] e da vontade dos que tornaram possível sua ascensão ao poder – ambas  qualidades muito volúveis e instáveis. Essas pessoas não sabem e não podem manter-se no poder, porque, a não ser que tenham grande engenho e valor, não é razoável que saibam comandar, já que viveram sempre como cidadãos comuns.
 
RG: Há um clima de frustração pela presidente não ter conseguido fazer política com transparência, ética e integridade. O senhor consideraria que ela se mostrou incapaz de transformar o discurso em ações concretas?
Maquiavel:
 Que não cause espanto o fato de que, ao falar de novas conquistas, tanto com respeito ao príncipe como com relação ao Estado, tenha lançado mão de tantos exemplos: na verdade, os homens seguem quase sempre caminhos já percorridos por outrem, agindo por imitação.
 
RG: A presidente foi eleita com uma pequena maioria. Sua competência eleitoral não significou competência política, portanto…
Maquiavel:
 [Permita lhe interromper…] Aqueles que se tornam príncipes pelo seu valor conquistam domínios com dificuldade, mas os mantêm facilmente; a dificuldade se origina em parte nas inovações que são obrigados a introduzir para organizar seu governo com segurança. Vale lembrar que não há nada mais difícil de executar e perigoso de manejar (e de êxito mais duvidoso) do que a instituição de uma nova ordem de coisas. Quem toma tal iniciativa suscita a inimizade de todos os que são beneficiados pela ordem antiga, e é defendido tibiamente por todos os que seriam beneficiados pela nova ordem – falta de calor que se explica, em parte, pelo medo dos adversários, que têm as leis do seu lado, e em parte pela incredulidade dos homens.
 
RG: Parece que realmente a presidente teve grande dificuldade na organização política do seu governo. Qual a sua análise?
Maquiavel: 
Para examinar perfeitamente este ponto, faz-se necessário, portanto, verificar se os inovadores são independentes ou não; isto é: se para executar suas obras precisam pedir ajuda a outrem, ou se podem impor-se pela força. Na primeira hipótese [de pedir ajuda] sempre se dão mal e não chegam a parte alguma.
 
RG: O senhor está afirmando que a presidente foi tentada pedir ajuda a quem chegou ao poder sem respaldo de seu próprio partido e que isso é perigoso. Alguns chegam ao poder por atos criminosos, não é?
Maquiavel:
 [Para alguns,] sua ascensão ao poder não se deveu à mercê de qualquer pessoa, mas à escalada dos graus de milícia, no meio de mil dificuldades e perigos, e se manteve no poder, depois disso, mediante muitos expedientes animosos e arriscados. Não se pode, contudo, achar meritório o assassínio dos seus compatriotas, a traição dos amigos, a conduta sem fé, piedade e religião; são métodos que podem conduzir ao poder, mas não à glória.


 
RG: O povo elegeu já um operário logo após o governo de um intelectual. O intelectual terminou seu mandato, apesar de graves denúncias de corrupção e favorecimento nas privatizações. Sua sucessora corre o risco de não apertar a mão do sucessor. O que aconteceu?
Maquiavel:
 O governo é instituído pelo povo ou pela aristocracia, conforme haja oportunidade para uma ou para a outra. Quando os ricos percebem que não podem resistir à pressão da massa, unem-se, prestigiando um dos seus e fazendo-o príncipe, de modo a poder perseguir seus propósitos à sombra da autoridade soberana. O povo, por outro lado, quando não pode resistir aos ricos, procura exaltar e criar um príncipe, dentre os seus que o proteja com sua autoridade. Quem chega ao poder com a ajuda dos ricos tem maior dificuldade em manter-se no governo do que quem é apoiado pelo povo, pois está rodeado de indivíduos que a ele se igualam. Mas quem chega ao poder levado pelo favor popular, nele está só; a desobediência é irrelevante. Além disso, é impossível satisfazer a nobreza, através da conduta justa sem causar prejuízo aos outros, mas é muito mais fácil satisfazer assim as massas. De fato, o povo tem objetivos mais honestos do que a nobreza; esta quer oprimir, enquanto o povo deseja apenas evitar a opressão.
 
RG: A presidente fez opções contrárias a seu discurso de campanha e aliou-se a segmentos muito reacionários da política brasileira. Quais consequências disso? O  que ela deve esperar?
Maquiavel:
 A pior coisa que o príncipe pode esperar de um povo hostil é ser abandonado, mas da hostilidade dos nobres deve esperar não só a deserção, mas oposição ativa; como eles têm maior alcance e são mais astutos, agem sempre oportunamente para salvar-se, e em qualquer disputa ficam do lado de quem presumem seja o vencedor.
 
RG: Nessa crise monumental que o Brasil passa, há partidos visceralmente ligados a grupos religiosos (investigados pela justiça como participantes dos esquemas de corrupção). Como o senhor vê esse envolvimento de religião e política?
Maquiavel: 
Como tais [igrejas] respondem a razões superiores, que a mente humana não tem acesso, não discorrerei sobre eles, sendo mantidos e abençoados (?) por Deus, só um tolo, ou um presunçoso, os discutiria… [contudo,] precisam ser vigiados com cuidado especial.
 
RG: Fala-se que a presidente foi blindada, mas muitos dos seus ministros são suspeitos de cumprirem a agenda de grupos reacionários, como representantes de uma oligarquia atrasada e interesseira. É possível que a presidente seja ingênua?
Maquiavel:
 A Escolha dos ministros por parte de um príncipe, não é coisa de pouca importância: os ministros serão bons ou maus, de acordo com a prudência que o príncipe demonstrar. A primeira impressão que se tem de um governante e da sua inteligência, é dada pelos homens que o cercam. Quando estes são eficientes e fiéis, pode-se considerar o príncipe sábio, pois foi capaz de reconhecer a capacidade e de manter fidelidade. Mas quando a situação é oposta, pode-se sempre fazer dele mau juízo, porque seu primeiro erro terá sido cometido ao escolher seus assessores.

RG: Muito obrigado.
Maquiavel:
 [Seja Feliz] .
 
(Todas as respostas de Maquiavel foram extraídas, "ipsis litteris",- com exceção dos colchetes-, de sua obra O Príncipe.)
 
Soli Deo Gloria

Fonte: Ogirassol

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Em cartaz no Recife, peça adapta texto de Maquiavel para o Sertão


Espetáculo fica em cartaz até 26 de julho no Teatro Apolo.

Ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), à venda na bilheteria.

A Mandrágora adapta texto de Maquiável para o Sertão pernambucano (Foto: Divulgação)'A Mandrágora' adapta texto de Maquiável para o Sertão pernambucano (Foto: Divulgação)
Nicolau Maquiavel é conhecido pela famosa frase 'os fins justificam os meios'. Em 'A Madrágora', a ideia é aplicada à conquista amorosa. O texto, escrito em 1503, ganha uma versão adaptada e vai parar no Sertão de Pernambuco na peça homônima, em cartaz a partir desta quinta-feira (16), no Teatro Apolo, no Bairro do Recife, região central da capital.
Adaptado por Guilherme Vasconelos, o texto traz Calímaco, um paraibano radicado no Recife, que se apaixona por Lucrécia, esposa do Coronel Nício Calfúcio. O rico casal não consegue ter filhos de forma alguma e Calímaco enxerga aí a oportunidade de aproximar-se de sua amada: se fingir de médico para poder envenenar seu rival, abrindo assim caminho para conquistar Lucrécia.
A peça fica em cartaz até o dia 26 de julho, sendo encenada sempre às 20h, de quinta a domingo. Os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), à venda na bilheteria do teatro. O espetáculo tem direção de Marcondes Lima e conta com os atores Tiago Gondim, vivendo Calímaco, Sóstenes Vidal (Coronel Nício Calfúcio) e Nínive Caldas (Lucrécia).
Serviço
'A Mandrágora'
Até 26 de julho, de quinta a domingo, às 20h
Teatro Apolo - Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife
R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), à venda na bilheteria do teatro
Mais informações: (81) 3355-3320

Fonte: G1

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Maquiavel e a Beija-Flor: Vale tudo para conseguir o que quer?

Fábio Zugman // sexta, 20/02/2015 15:40
"Os fins justificam os meios". Quando ouvi essa frase pela primeira vez, me disseram que ela foi dita por um sujeito chamado Nicolau Maquiavel. A ideia é que se você tem um objetivo, não importa como você chegou lá. Os meios são só uma forma de chegar aonde se deseja. 
Se você ler o Príncipe, sua obra mais conhecida, vai ler sobre o genial caso de um sujeito que manda matar seu próprio comandante para adquirir a confiança da população local. Tudo pelo "objetivo" de chegar ao poder, não?
As lições de O Príncipe, se levadas ao pé da letra, nos levam a conclusões bastante cruéis, em uma lição bastante pragmática de como conseguir e manter o poder. Maquiavel entrou para a história como o cara que nos ensina essas coisas, e até hoje chamamos alguém de maquiavélico mais como um insulto do que como um elogio.
Acontece que nosso amigo Maquiavel sentiu na pele o que era viver à mercê dos poderosos. Seu livro o Príncipe é tido por muitos como uma tentativa do autor de reconquistar seu lugar perante a sociedade, após passar por um golpe de estado, quando teria, inclusive, sido preso e torturado. 
À primeira vista, O Príncipe parece um manual para governantes novatos. Se olharmos de perto, porém, o livro é um aviso a todos nós, reles mortais, das consequências de viver em um mundo onde os fins justificam os meios.
Tendo vivido entre a nobreza, muitos hoje veem a obra de Maquiavel como uma tentativa de contar ao resto do mundo o que acontecia "por trás das câmeras". Por essa visão, o próprio autor não concordaria que vale tudo para chegar aonde queremos, e "maquiavélico" adquire um significado muito mais positivo.
Vamos para o mundo de hoje. A crise de 2007-2008 que começou nos EUA e se alastrou pelo mundo fez com que muita gente parasse para pensar. As escolas de negócios (principalmente as melhores entre seus pares) perceberam que estavam colocando o foco demais em como chegar aos objetivos, fornecendo ferramentas e conhecimento para seus alunos desempenharem as funções de líderes, mas deixando de lado todo o contexto, que na maioria dos casos era tratado naquela coisa essencialmente chata chamada "aula de ética" (e antes que me joguem pedras, caros leitores, nunca vi um aluno gritar de emoção antes de uma aula dessas).
Em muitos casos, apareceram experiências positivas, com aulas de filosofia, literatura e ética sendo utilizadas em contextos modernos. Ainda é cedo para falar, mas pelo menos há um esforço em criar gestores capazes de colocar a mão na cabeça antes de fazer algo somente porque dá lucro. 
Em exemplos famosos, o fundo soberano da Noruega e o da Fundação Bill Gates colocaram em seus estatutos que não investiriam em empresas que "façam o mal", como indústrias de armas e tabaco (o fundo norueguês causou sensação na mídia um tempo atrás quando vendeu sua participação no Walmart após denúncias de maus tratos a funcionários). 
Várias outros fundos e empresas seguiram o exemplo, preferindo abrir mão da possibilidade de lucros a comprometer seus valores.
O que me leva ao Carnaval. Ah, o Carnaval. Aquela festa da alegria que toma conta do nosso país. Há quem diga que Carnaval é muito maior que o desfile da Sapucaí. Mas, ainda assim, o desfile é uma parte importante, ocupando nossos olhares toda vez que ligamos a TV nesse período. Também é grande parte da imagem que projetamos da nossa festa para fora do país.
Acontece que neste ano, em particular, uma escola de samba ganhou o prêmio principal homenageando uma certa ditadura africana. Como é normal que os homenageados paguem pela honra, a comemoração das belezas naturais do país foi paga pelo menos em parte por um déspota acusado de várias violações de direitos humanos.
Não me escapa a ironia de que o Carnaval tem a história toda banhada em sacanagem. As escolas de samba, desde o início, foram uma forma de os chefes do jogo do bicho ganharem seu espaço na sociedade. 
Alguns vão dizer que em Carnaval sempre teve sacanagem e é assim que as coisas são (alguns até dizem que a coisa toda começou com grandes festas pagãs antes mesmo de o cristianismo surgir).
Acontece que não existe ação sem responsabilidade. Imagine que após o Carnaval eu digo para um grande amigo meu que fui ao motel com a namorada dele. "Bem, os dois estávamos bêbados e ela é uma galinha." Uma explicação irresponsável e sexista que tira toda a responsabilidade de meus ombros. Se o sujeito quer namorar uma garota infiel, azar o dele, não é mesmo?
Não. Você pode saber que existem ditaduras sanguinárias no mundo, e entendo que não queira ir lá morrer para devolver a democracia aos outros. Ainda assim, pode dormir tranquilo sabendo que ao menos não tem participação naquilo.
No entanto, se você pega dinheiro deles, está assumindo parte da responsabilidade. Se você tem uma bela joia, mas alguém morreu para que ela saísse de algum canto esquecido do mundo e chegasse até você, esse belo diamante é também um diamante de sangue.
O exemplo do Carnaval nos lembra que nem sempre podemos contar com os juízes ou autoridades de plantão. Nesse caso, não passaram de burocratas desinteressados, com a mesma postura que já critiquei diversas vezes por aqui.
O que temos, na maioria das vezes, é o nosso bom senso, e ao menos a tentativa de criar novas gerações com um senso maior de responsabilidade. Alguém um dia irá explicar para a criança que vê aquela festa toda que aquilo é pago com dinheiro sujo. Será que queremos que a coisa continue assim?
Chega da desculpa de "sempre foi assim". Nenhum gestor em nenhum organizações pode se eximir das responsabilidades de seus atos. Não me venham com papo de que é difícil fazer Carnaval sem dinheiro sujo. Difícil é fazer uma cirurgia craniana, construir aviões, tentar curar o câncer. E no mundo todo há pessoas fazendo essas coisas todos os dias.
Como gestores, devemos no mínimo pensar na consequência de nossos atos, de onde vêm e para onde vão os recursos que passam pelas organizações. Os fins nem sempre justificam os meios, e muitas vezes é preciso abrir mão de algo para não comprometer nossos valores. 
Em muitos casos, não é um juiz que dirá o que é certo ou errado, mas a formação e consciência das pessoas que ocupam papéis de liderança.
A festa da semana passada foi feita com dinheiro de sangue. Resta esperar e educar para que as próximas não sejam.
* Fábio Zugman é professor universitário e mestre em Administração pela UFPR.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Manual do mundo político

Por Josenildo Melo

Mais que um tratado sobre as condições concretas do jogo político, O Príncipe é um estudo sobre as oportunidades oferecidas pela fortuna, sobre as virtudes e os vícios intrínsecos ao comportamento dos governantes, com sugestões sobre moralidade, ética e organização urbana que, apesar da inspiração histórica, permanecem espantosamente atuais. Quem deve fazer a Política? Para Maquiavel O Príncipe. Qualquer um que fosse – aventureiro ou hereditário – que assumisse controle do Estado e exercesse o poder em seu nome. 

Ele deve reunir para tal uma série de condições, tal como concentrar em si a astúcia da raposa e a coragem do leão, inclusive ser dissimulado e perjuro se a segurança do Estado assim o exigir. E deve eliminar, sem contemplação ou hesitação, tudo aquilo que possa ameaçá-lo, preferindo ser temido do que amado, pois ele sempre tem em conta a volubilidade humana. O príncipe deve “abster-se dos bens alheios, posto que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio” (“O Príncipe”, cap. XVII). A sua política deve orientar-se sempre pelos critérios da eficiência, daquilo que se chama de pragmatismo: “Procure, pois, um príncipe, vencer e manter o Estado: os meios serão sempre honrosos e por todos louvados, porque o vulgo sempre se deixa levar pelas aparências e pelos resultados... (“O Príncipe”, cap. XVIII). 

Nenhum povo do mundo antigo contribuiu tanto para a riqueza e a compreensão da Política, no seu sentido mais amplo, como o fizeram os gregos. Os nomes de Sócrates, Platão e Aristóteles, no campo da teoria, de Péricles e de Demóstenes na arte da oratória, estão presentes em qualquer estudo erudito que se faça a respeito e mesmo nos mais singelos manuais de divulgação. Entendiam-na - a política - como uma ciência superior, determinante de qualquer organização social e com inquestionáveis reflexos sobre a vida dos indivíduos. Para Aristóteles era a arte de governar a cidade-estado (pólis). Por não conviverem com estados-nacionais, mas sim com organizações menores, as cidades, para os gregos, tornaram-se o objeto da sua maior atenção.

Como nenhum outro povo, interessaram-se pela administração da coisa pública, envolvendo-se nos intensos e acalorados debates políticos que afetavam a comunidade, manifestando extraordinária consciência sobre a importância e o significado da palavra eleutéria, entendida como liberdade e independência da cidade em relação a qualquer outro poder vindo de fora – num mundo cercado pelo despotismo e pela tirania. A sua contribuição não se confinou somente ao teórico, pois também legaram os grandes discursos de Demóstenes e de Ésquines que imortalizaram a oratória voltada para a ação.

A Política de Aristóteles. Enquanto seu mestre Platão inclinou-se preferencialmente por fazer desenhos de construções sociais imaginárias, utópicas, por projeções sobre qual o melhor futuro da humanidade, Aristóteles, seu discípulo mais famoso, procurou tratar das coisas reais, dos sistema políticos existentes na sua época. Atentou por classificá-los, definindo suas características mais proeminentes, separando-os em puros ou pervertidos. Desta forma, enquanto Platão inspirou revolucionários e doutrinários da sociedade perfeita, Aristóteles foi o mentor dos grandes juristas e dos pensadores políticos mais inclinados à ciência e ao realismo.

Maquiavel, Hobbes, e o estado forte. Distanciados por mais ou menos um século e meio um do outro, foram publicados dois tratados clássicos da ciência política: um na Itália e o outro na Inglaterra. Um intitulo-se “ O Príncipe”, de 1513, de autoria do escritor florentino Nicolau Maquiavel e o outro chamou-se “ O Leviatã”, de 1650, do pensador britânico Thomas Hobbes. Vivia-se na época da afirmação da monarquia absolutista, período conturbado onde as forças feudais e populares acirravam a disputa pelo controle sobre as monarquias nacionais, gerando permanente instabilidade, daí ambos defenderem, de maneiras diversas, o reforçamento do poder do estado.

A grandeza e originalidade de 'O Príncipe' consiste em ter alargado o campo da ciência na política, distinguindo os interesses políticos primários das classes, mas confundindo-os, ao mesmo tempo, em uma monstruosa razão de Estado pela qual o povo é apenas matéria plástica nas mãos do Príncipe.

Àqueles que chegam desavisados ao texto límpido e elegante de Nicolau Maquiavel pode parecer que o autor escreveu, na Florença do século xvi, um manual abstrato para a conduta de um mandatário. Entretanto, esta obra clássica da filosofia moderna, fundadora da ciência política, é fruto da época em que foi concebida. 

Depois da dissolução do governo republicano de Florença e do retorno da família Médici ao poder, Maquiavel é preso, acusado de conspiração. Perdoado pelo papa Leão x, ele se exila e passa a escrever suas grandes obras. O Príncipe, publicado postumamente, em 1532, é uma esplêndida meditação sobre a conduta do governante e sobre o funcionamento do Estado, produzida num momento da história ocidental em que o direito ao poder já não depende apenas da hereditariedade e dos laços de sangue.


Fonte: Portalaz