sexta-feira, 17 de julho de 2015

Em cartaz no Recife, peça adapta texto de Maquiavel para o Sertão


Espetáculo fica em cartaz até 26 de julho no Teatro Apolo.

Ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), à venda na bilheteria.

A Mandrágora adapta texto de Maquiável para o Sertão pernambucano (Foto: Divulgação)'A Mandrágora' adapta texto de Maquiável para o Sertão pernambucano (Foto: Divulgação)
Nicolau Maquiavel é conhecido pela famosa frase 'os fins justificam os meios'. Em 'A Madrágora', a ideia é aplicada à conquista amorosa. O texto, escrito em 1503, ganha uma versão adaptada e vai parar no Sertão de Pernambuco na peça homônima, em cartaz a partir desta quinta-feira (16), no Teatro Apolo, no Bairro do Recife, região central da capital.
Adaptado por Guilherme Vasconelos, o texto traz Calímaco, um paraibano radicado no Recife, que se apaixona por Lucrécia, esposa do Coronel Nício Calfúcio. O rico casal não consegue ter filhos de forma alguma e Calímaco enxerga aí a oportunidade de aproximar-se de sua amada: se fingir de médico para poder envenenar seu rival, abrindo assim caminho para conquistar Lucrécia.
A peça fica em cartaz até o dia 26 de julho, sendo encenada sempre às 20h, de quinta a domingo. Os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), à venda na bilheteria do teatro. O espetáculo tem direção de Marcondes Lima e conta com os atores Tiago Gondim, vivendo Calímaco, Sóstenes Vidal (Coronel Nício Calfúcio) e Nínive Caldas (Lucrécia).
Serviço
'A Mandrágora'
Até 26 de julho, de quinta a domingo, às 20h
Teatro Apolo - Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife
R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), à venda na bilheteria do teatro
Mais informações: (81) 3355-3320

Fonte: G1

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Maquiavel e a Beija-Flor: Vale tudo para conseguir o que quer?

Fábio Zugman // sexta, 20/02/2015 15:40
"Os fins justificam os meios". Quando ouvi essa frase pela primeira vez, me disseram que ela foi dita por um sujeito chamado Nicolau Maquiavel. A ideia é que se você tem um objetivo, não importa como você chegou lá. Os meios são só uma forma de chegar aonde se deseja. 
Se você ler o Príncipe, sua obra mais conhecida, vai ler sobre o genial caso de um sujeito que manda matar seu próprio comandante para adquirir a confiança da população local. Tudo pelo "objetivo" de chegar ao poder, não?
As lições de O Príncipe, se levadas ao pé da letra, nos levam a conclusões bastante cruéis, em uma lição bastante pragmática de como conseguir e manter o poder. Maquiavel entrou para a história como o cara que nos ensina essas coisas, e até hoje chamamos alguém de maquiavélico mais como um insulto do que como um elogio.
Acontece que nosso amigo Maquiavel sentiu na pele o que era viver à mercê dos poderosos. Seu livro o Príncipe é tido por muitos como uma tentativa do autor de reconquistar seu lugar perante a sociedade, após passar por um golpe de estado, quando teria, inclusive, sido preso e torturado. 
À primeira vista, O Príncipe parece um manual para governantes novatos. Se olharmos de perto, porém, o livro é um aviso a todos nós, reles mortais, das consequências de viver em um mundo onde os fins justificam os meios.
Tendo vivido entre a nobreza, muitos hoje veem a obra de Maquiavel como uma tentativa de contar ao resto do mundo o que acontecia "por trás das câmeras". Por essa visão, o próprio autor não concordaria que vale tudo para chegar aonde queremos, e "maquiavélico" adquire um significado muito mais positivo.
Vamos para o mundo de hoje. A crise de 2007-2008 que começou nos EUA e se alastrou pelo mundo fez com que muita gente parasse para pensar. As escolas de negócios (principalmente as melhores entre seus pares) perceberam que estavam colocando o foco demais em como chegar aos objetivos, fornecendo ferramentas e conhecimento para seus alunos desempenharem as funções de líderes, mas deixando de lado todo o contexto, que na maioria dos casos era tratado naquela coisa essencialmente chata chamada "aula de ética" (e antes que me joguem pedras, caros leitores, nunca vi um aluno gritar de emoção antes de uma aula dessas).
Em muitos casos, apareceram experiências positivas, com aulas de filosofia, literatura e ética sendo utilizadas em contextos modernos. Ainda é cedo para falar, mas pelo menos há um esforço em criar gestores capazes de colocar a mão na cabeça antes de fazer algo somente porque dá lucro. 
Em exemplos famosos, o fundo soberano da Noruega e o da Fundação Bill Gates colocaram em seus estatutos que não investiriam em empresas que "façam o mal", como indústrias de armas e tabaco (o fundo norueguês causou sensação na mídia um tempo atrás quando vendeu sua participação no Walmart após denúncias de maus tratos a funcionários). 
Várias outros fundos e empresas seguiram o exemplo, preferindo abrir mão da possibilidade de lucros a comprometer seus valores.
O que me leva ao Carnaval. Ah, o Carnaval. Aquela festa da alegria que toma conta do nosso país. Há quem diga que Carnaval é muito maior que o desfile da Sapucaí. Mas, ainda assim, o desfile é uma parte importante, ocupando nossos olhares toda vez que ligamos a TV nesse período. Também é grande parte da imagem que projetamos da nossa festa para fora do país.
Acontece que neste ano, em particular, uma escola de samba ganhou o prêmio principal homenageando uma certa ditadura africana. Como é normal que os homenageados paguem pela honra, a comemoração das belezas naturais do país foi paga pelo menos em parte por um déspota acusado de várias violações de direitos humanos.
Não me escapa a ironia de que o Carnaval tem a história toda banhada em sacanagem. As escolas de samba, desde o início, foram uma forma de os chefes do jogo do bicho ganharem seu espaço na sociedade. 
Alguns vão dizer que em Carnaval sempre teve sacanagem e é assim que as coisas são (alguns até dizem que a coisa toda começou com grandes festas pagãs antes mesmo de o cristianismo surgir).
Acontece que não existe ação sem responsabilidade. Imagine que após o Carnaval eu digo para um grande amigo meu que fui ao motel com a namorada dele. "Bem, os dois estávamos bêbados e ela é uma galinha." Uma explicação irresponsável e sexista que tira toda a responsabilidade de meus ombros. Se o sujeito quer namorar uma garota infiel, azar o dele, não é mesmo?
Não. Você pode saber que existem ditaduras sanguinárias no mundo, e entendo que não queira ir lá morrer para devolver a democracia aos outros. Ainda assim, pode dormir tranquilo sabendo que ao menos não tem participação naquilo.
No entanto, se você pega dinheiro deles, está assumindo parte da responsabilidade. Se você tem uma bela joia, mas alguém morreu para que ela saísse de algum canto esquecido do mundo e chegasse até você, esse belo diamante é também um diamante de sangue.
O exemplo do Carnaval nos lembra que nem sempre podemos contar com os juízes ou autoridades de plantão. Nesse caso, não passaram de burocratas desinteressados, com a mesma postura que já critiquei diversas vezes por aqui.
O que temos, na maioria das vezes, é o nosso bom senso, e ao menos a tentativa de criar novas gerações com um senso maior de responsabilidade. Alguém um dia irá explicar para a criança que vê aquela festa toda que aquilo é pago com dinheiro sujo. Será que queremos que a coisa continue assim?
Chega da desculpa de "sempre foi assim". Nenhum gestor em nenhum organizações pode se eximir das responsabilidades de seus atos. Não me venham com papo de que é difícil fazer Carnaval sem dinheiro sujo. Difícil é fazer uma cirurgia craniana, construir aviões, tentar curar o câncer. E no mundo todo há pessoas fazendo essas coisas todos os dias.
Como gestores, devemos no mínimo pensar na consequência de nossos atos, de onde vêm e para onde vão os recursos que passam pelas organizações. Os fins nem sempre justificam os meios, e muitas vezes é preciso abrir mão de algo para não comprometer nossos valores. 
Em muitos casos, não é um juiz que dirá o que é certo ou errado, mas a formação e consciência das pessoas que ocupam papéis de liderança.
A festa da semana passada foi feita com dinheiro de sangue. Resta esperar e educar para que as próximas não sejam.
* Fábio Zugman é professor universitário e mestre em Administração pela UFPR.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Manual do mundo político

Por Josenildo Melo

Mais que um tratado sobre as condições concretas do jogo político, O Príncipe é um estudo sobre as oportunidades oferecidas pela fortuna, sobre as virtudes e os vícios intrínsecos ao comportamento dos governantes, com sugestões sobre moralidade, ética e organização urbana que, apesar da inspiração histórica, permanecem espantosamente atuais. Quem deve fazer a Política? Para Maquiavel O Príncipe. Qualquer um que fosse – aventureiro ou hereditário – que assumisse controle do Estado e exercesse o poder em seu nome. 

Ele deve reunir para tal uma série de condições, tal como concentrar em si a astúcia da raposa e a coragem do leão, inclusive ser dissimulado e perjuro se a segurança do Estado assim o exigir. E deve eliminar, sem contemplação ou hesitação, tudo aquilo que possa ameaçá-lo, preferindo ser temido do que amado, pois ele sempre tem em conta a volubilidade humana. O príncipe deve “abster-se dos bens alheios, posto que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio” (“O Príncipe”, cap. XVII). A sua política deve orientar-se sempre pelos critérios da eficiência, daquilo que se chama de pragmatismo: “Procure, pois, um príncipe, vencer e manter o Estado: os meios serão sempre honrosos e por todos louvados, porque o vulgo sempre se deixa levar pelas aparências e pelos resultados... (“O Príncipe”, cap. XVIII). 

Nenhum povo do mundo antigo contribuiu tanto para a riqueza e a compreensão da Política, no seu sentido mais amplo, como o fizeram os gregos. Os nomes de Sócrates, Platão e Aristóteles, no campo da teoria, de Péricles e de Demóstenes na arte da oratória, estão presentes em qualquer estudo erudito que se faça a respeito e mesmo nos mais singelos manuais de divulgação. Entendiam-na - a política - como uma ciência superior, determinante de qualquer organização social e com inquestionáveis reflexos sobre a vida dos indivíduos. Para Aristóteles era a arte de governar a cidade-estado (pólis). Por não conviverem com estados-nacionais, mas sim com organizações menores, as cidades, para os gregos, tornaram-se o objeto da sua maior atenção.

Como nenhum outro povo, interessaram-se pela administração da coisa pública, envolvendo-se nos intensos e acalorados debates políticos que afetavam a comunidade, manifestando extraordinária consciência sobre a importância e o significado da palavra eleutéria, entendida como liberdade e independência da cidade em relação a qualquer outro poder vindo de fora – num mundo cercado pelo despotismo e pela tirania. A sua contribuição não se confinou somente ao teórico, pois também legaram os grandes discursos de Demóstenes e de Ésquines que imortalizaram a oratória voltada para a ação.

A Política de Aristóteles. Enquanto seu mestre Platão inclinou-se preferencialmente por fazer desenhos de construções sociais imaginárias, utópicas, por projeções sobre qual o melhor futuro da humanidade, Aristóteles, seu discípulo mais famoso, procurou tratar das coisas reais, dos sistema políticos existentes na sua época. Atentou por classificá-los, definindo suas características mais proeminentes, separando-os em puros ou pervertidos. Desta forma, enquanto Platão inspirou revolucionários e doutrinários da sociedade perfeita, Aristóteles foi o mentor dos grandes juristas e dos pensadores políticos mais inclinados à ciência e ao realismo.

Maquiavel, Hobbes, e o estado forte. Distanciados por mais ou menos um século e meio um do outro, foram publicados dois tratados clássicos da ciência política: um na Itália e o outro na Inglaterra. Um intitulo-se “ O Príncipe”, de 1513, de autoria do escritor florentino Nicolau Maquiavel e o outro chamou-se “ O Leviatã”, de 1650, do pensador britânico Thomas Hobbes. Vivia-se na época da afirmação da monarquia absolutista, período conturbado onde as forças feudais e populares acirravam a disputa pelo controle sobre as monarquias nacionais, gerando permanente instabilidade, daí ambos defenderem, de maneiras diversas, o reforçamento do poder do estado.

A grandeza e originalidade de 'O Príncipe' consiste em ter alargado o campo da ciência na política, distinguindo os interesses políticos primários das classes, mas confundindo-os, ao mesmo tempo, em uma monstruosa razão de Estado pela qual o povo é apenas matéria plástica nas mãos do Príncipe.

Àqueles que chegam desavisados ao texto límpido e elegante de Nicolau Maquiavel pode parecer que o autor escreveu, na Florença do século xvi, um manual abstrato para a conduta de um mandatário. Entretanto, esta obra clássica da filosofia moderna, fundadora da ciência política, é fruto da época em que foi concebida. 

Depois da dissolução do governo republicano de Florença e do retorno da família Médici ao poder, Maquiavel é preso, acusado de conspiração. Perdoado pelo papa Leão x, ele se exila e passa a escrever suas grandes obras. O Príncipe, publicado postumamente, em 1532, é uma esplêndida meditação sobre a conduta do governante e sobre o funcionamento do Estado, produzida num momento da história ocidental em que o direito ao poder já não depende apenas da hereditariedade e dos laços de sangue.


Fonte: Portalaz

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Uma eleição do óbvio

Pouco me surpreendeu o resultado da eleição presidencial do último domingo dia 26 de outubro de 2014. Para tanto, basta fazer uma análise dos candidatos, debates e eleitores. Os comentários desairosos ou mesmo preconceituosos serviram como um estopim para espantar alguns eleitores indecisos, que pouco estavam preparados para entender e aceitar tais vereditos. Abordagens em tons homofóbicos e caluniosos feitos desnecessariamente foram a gota d’água para rotular a mediocridade de tais candidatos.
“Os preconceitos têm mais raízes do que os princípios.” Nicolau Maquiavel.
Outro aspecto interessante foram os debates permeados sobre questões neossocialistas, extremamente bem tecidos por Luciana Genro, apesar do seu vocabulário enriquecedor; porem complexo para brasileiros com pouco discernimento para entendê-los. Faltaram-lhes as lições de Nicolau Maquiavel: “eu creio que um dos princípios essenciais da sabedoria é o de se abster das ameaças verbais ou insultos.”
Com tantos atropelos, propostas obscuras ou falta delas, seria óbvio terminar da forma mais convencional possível; mais uma vez, esquerda e direita para o delírio de fanáticos e oportunistas. Por fim, como toda festa deixa um lixo, esta não seria diferente. Restaram ofensas, comentários desnecessários que feriram a integridade dos brasileiros. Artistas, colunistas e até celebridades postando em redes sociais sua ira contra o próximo. As ofensas aos nordestinos e a classe menos favorecida financeiramente tornaram-se feridas incuráveis produzidas pela tolice humana. Que a próxima eleição sejamos mais sensíveis, pois não basta dizer: “cumpri meu exercício de cidadão, mas esqueci de não ferir um ser humano.”
(Aguinaldo Sabino Alves,poeta e escritor)
http://www.dm.com.br/texto/196161-uma-eleicao-do-obvio

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Armando Avena: Maquiavel e a eleição na Bahia e no Brasil

Nicolau Maquiavel dizia que para  alcançar o poder o príncipe precisava ter virtù e, ao mesmo tempo, seduzir a Fortuna.  A virtù seria uma energia especial, uma vontade férrea em busca do poder e a capacidade de lutar e mobilizar as forças que permitam alcançá-lo. A Fortuna seria o destino, representado por uma deusa que, com sua  cornucópia, trazia boa ou má sorte aos homens. A Fortuna é mulher, dizia o florentino, e precisa ser seduzida por aquele que deseje o poder, mesmo sabendo que, como mulher e deusa, a qualquer momento ela poderá abandoná-lo.

O resultado das eleições no Brasil e na Bahia foram Maquiavel puro. O candidato Eduardo Campos, por exemplo, era um homem dotado de vontade pelo poder e tamanha capacidade e energia  que iria alcançá-lo mais cedo ou mais tarde. Campos tinha virtù, mas no meio do caminho foi abandonado pela Fortuna. Já Marina foi bafejada pela sorte e a deusa colocou a Presidência da República em suas mãos, mas ela não teve virtù, não mostrou capacidade de luta e de reação frente ao ataque do inimigo e ficou no meio do caminho.  Dilma Rousseff e Aécio Neves, ao contrário, desejam o poder e estão dispostos a lutar desesperadamente por ele, ambos são dotados de virtù, resta saber qual deles será capaz de seduzir a Fortuna.
Na Bahia, tanto o governador Jaques Wagner quanto o prefeito ACM Neto são homens dotados de virtù e ambos foram bafejados pela Fortuna. O governador, contra todas as expectativas, elegeu o candidato Rui Costa  no primeiro turno, e é, sem dúvida,  o grande vencedor dessas eleições na Bahia.  Mas engana-se quem pensa que o prefeito ACM Neto foi derrotado.  Com olhos em 2018, a deusa da Fortuna o protegeu,  afastando-o do desgaste de quatro anos de governo, num período difícil que poderá, inclusive, a depender dos seus desígnios, manter na Presidência da República um adversário.  ACM Neto não ganhou  a eleição, mas a Fortuna o preservou para 2018.
E como Maquiavel explicaria o resultado das eleições na Bahia e a vitória de Rui Costa com mais de milhão de votos? São muitas as hipóteses, mas ele provavelmente diria que a oposição errou ao identificar um sentimento de mudança generalizado na população. Esse sentimento existia apenas na classe média ou em parte dela.  E a prova disso era a aprovação do governo Wagner, em torno de 55%, o mesmo índice que elegeu o governador Rui Costa.
Havia efetivamente uma má avaliação generalizada em  setores como saúde e segurança pública, mas em outros, como emprego, estradas ou mobilidade urbana, a avaliação era boa, ou muito boa. A violência, por exemplo, não gera tanta indignação entre as camadas mais pobres da população que já estão acostumadas com ela, essas pessoas dão muito mais importância ao emprego ou a programas de transferência de renda. Para completar, essa tese, que supunha a vontade generalizada de mudança, seria boa e poderia até vingar se fosse apresentada por um nome novo, como o próprio ACM Neto, mas não se coadunava com o candidato Paulo Souto, um homem sério e competente, mas que  não representa o novo.
Outras razões podem explicar a derrota, como a vinculação, inclusive no número, entre a candidata à presidente e a governador, mas a melhor explicação para o resultado das eleições na Bahia é econômica e tem nome e sobrenome: Bolsa Família. Na Bahia, 1,8 milhão de pessoas recebem diretamente os benefícios do programa, mas, além deles, estão inscritas no cadastro mais 1,1 milhões de pessoas.
Isso significa, supondo uma família nuclear composta de três pessoas, que cerca de 5,5 milhões de baianos dependem direta ou indiretamente do Bolsa Família e mais 3,3 milhões estão na fila para receber o benefício.
Ou seja, quase 70% da população baiana tem ou pretende ter vínculo com o Bolsa Família. Em Salvador, 190 mil famílias recebem o beneficio  e 170 mil estão inscritas para receber, o que significa que cerca de 1 milhão de soteropolitanos estão envolvidos, direta ou indiretamente, com o programa. Aliás, frente a esses números, o candidato Aécio Neves deveria estar gritando, sem rodeios, pela Bahia afora, e pelo Nordeste, que vai manter e ampliar o Bolsa Família, até porque esse é um bom programa.
Dei-me por satisfeito com a análise e já ia colocar o ponto final no artigo, quando, de repente, o velho Maquiavel materializou-se e, afirmando que faltava uma última constatação, disse com uma voz diabólica: “A  vitória do governo na Bahia e em outros estados do Nordeste é a prova de que a região  reage com atraso à vontade de  mudança.
Em 2002, quando a onda mudancista colocou Lula no poder, a Bahia elegeu Paulo Souto, e o Nordeste inteiro permaneceu atrelado à antiga ordem. Agora pode ser dar o mesmo”.  Pode ser, admiti – olhando assustado  para o fantasma que já se dissipava –, mas isso quem vai decidir é o povo, após uma campanha sangrenta, e numa das eleições mais disputadas da história do Brasil.
Horário de Verão
“Mais luz”, disse Goethe, o grande poeta alemão, quando seus olhos foram condenados definitivamente à escuridão. Mais luz, diz a Bahia, às vésperas de novamente ficar de fora do horário de Verão que começa no próximo dia 19 de outubro.

Ficar de fora do novo horário vai reduzir o crescimento da economia baiana, que possui muito mais ligações econômicas e de toda ordem com os estados do Sul e Sudeste, que serão regidos por esse horário, do que com os estados do Nordeste, que continuarão com o horário de sempre.  Além disso, o comércio será prejudicado, os bares e restaurantes perderão a oportunidade de ter mais uma hora de faturamento e o turismo vai perder competitividade em relação a outros estados.
Para completar haverá  atraso nas negociações cambiais para o comércio exterior,  incompatibilidade de horários dos voos do aeroporto de Salvador com os das outras capitais, problemas nos sistemas de comunicação e redução do horário de negociação de ações na bolsa de valores de São Paulo.
Se a economia sofre, a população também, pois  ficará com uma hora a menos de expediente bancário,  verá sua novela e seu jogo de futebol com uma hora de atraso e perderá a possibilidade de ter mais uma hora de lazer e socialização. E isso sem falar na economia de energia elétrica. Ficar de forra do horário de Verão significa menos emprego, menos turismo e menos diversão para a Bahia.
O Bolsa Família devia virar lei
O Bolsa Família é  programa clássico de distribuição de renda, com origem nas teses liberais, e deveria ser institucionalizado para evitar seu uso político. O programa é bom porque não é intervencionista, pelo contrário, é capitalista em sua essência.  A vantagem do Bolsa Família é que o governo, em vez de gastar dinheiro público, subsidiando o empresário através do BNDES ou mantendo a gasolina abaixo do preço, beneficiando quem tem automóvel, em vez de desperdiçar dinheiro com obras faraônicas ou com corrupção, coloca esses recursos diretamente na mão de quem precisa e vai gastar, dinamizando assim a economia.

O programa é capitalista, pois estimula o consumo, sem a intervenção do governo, que não pode dizer onde o beneficiado vai gastar. Cerca de R$ 3 bilhões do Bolsa Família vieram para a Bahia em 2013, e aproximadamente 300 milhões tiveram Salvador como destino. Em muitas cidades do interior é esse recurso, juntamente com os repasses da Previdência Social, que movimenta a economia, o comércio e os serviços. O Bolsa Família é fundamental para o Nordeste e deveria virar lei para não ser usado politicamente.
Fonte: Correio24h

terça-feira, 27 de maio de 2014

Aulinha de Maquiavel - por Archibaldo Antunes

O desgaste do governo Alckmin (SP) ante a crise do abastecimento de água e sucessivos escândalos no sistema de metrô levou os tucanos à releitura de Maquiavel. Essa gente sabe que nos momentos de crise – durante os quais o populacho ameaça guilhotinar os integrantes da realeza – é preciso colocar a culpa nos inimigos externos.

Distante cerca de 3,6 mil quilômetros de São Paulo, e governado pelos desafetos históricos do PT, o Acre serviu como uma luva nas mãos dos tucanos desesperados. E não deu outra: com a ida para Sampa de algumas centenas de imigrantes haitianos, armou-se o circo de que precisavam os “alquimistas” para desviar a atenção da plateia sedenta por água e um lugar sossegado no vagão do metrô.
E pra que pudessem dar ares de seriedade à ópera bufa, os tucanos paulistas escalaram até um articulista de Veja para atacar o governador Tião Viana. Tudo após um entrevero midiático entre os dois políticos, que teve como tema a responsabilidade de abrigar e cuidar dos imigrantes que nos chegam aos magotes do Haiti, Senegal e República Dominicana.
J. R. Guzzo, o escriba da Veja, fez como a secretária de Justiça de Alckmin ao rebaixar o nível de sua pena para atacar Tião Viana, chamando-o de “um servidor opaco do médio clero do PT”. Desancar o governador acreano por conta do deslocamento de haitianos que entraram no País por Brasileia, via Peru, é mais fácil que terçar armas com o governo federal, de quem se espera socorro milionário neste momento de crise. Mas é bem menos insensato que sugerir – como fez o também tucano Marcio Bittar – que as nossas fronteiras fossem fechadas aos imigrantes.
A revista Veja, bem como Guzzo, não quer que São Paulo arque com custo nenhum decorrente da imigração de haitianos para o Brasil. Desde que seja o Acre (ou o Amapá, Roraima, Rondônia, etc.) a fazer sacrifícios, tanto os alquimistas quanto os intelectuais de sua redação estarão pouco se lixando para o que acontece a mais de três mil quilômetros de distância dali.
A deselegância de J. R. Guzzo, que apequenou o próprio estilo ao emprestar a pena aos alquimistas do PSDB, é apenas reflexo de uma inépcia maior – que acomoda no mesmo balaio os burocratas elitistas e a subserviência proxeneta da intelligentsia paulistana. Veja já demonstrara anteriormente, ao criticar em sua coluna Radar o transporte aéreo de produtos alimentícios para o Acre durante a cheia do rio Madeira, o que pensa sobre o Estado e seus habitantes.
Se juntarmos à inépcia dessa gente a sua crônica incapacidade de compreender a diversidade do País, teremos a equação entre o nosso modo de agir o que eles pensam de si mesmos.
Não é à toa que há enorme diferença entre os que alimentam os devaneios separatistas e aqueles que empunharam armas para ser aceitos como filhos do Brasil.
Em São Paulo existe até o MRSP, ou Movimento República de São Paulo, que pretende se livrar do resto do país com uma só canetada.
Compõem o movimento alguns jovens de classe média alta das cidades mais ricas do interior do Estado. Como não podia ser diferente, o grupo põe nos migrantes do Nordeste a culpa por todos os seus problemas cotidianos.
A patota de Alckmin certamente descobriu que o Acre foi povoado por nordestinos.
Archibaldo Antunes – ark30antunes@bol.com.br - Jornalista